terça-feira, 8 de março de 2011

Agonia.

Londres, madrugada, estava sozinho voltando para casa da festa de um velho amigo meu, aquela rua vazia e escura durante o dia era completamente preenchida pelos rotineiros turistas e consumistas. Mas naquela hora só restava o lixo e as poças d'água de mais cedo.
Durante a caminhada uma onda de medo tomou conta de minhas veias, o sangue fugiu de meu rosto. Senti o frio acentuar-se na leve brisa noturna. Senti vontade de correr, em vão esforcei minhas pernas ao máximo, mas não conseguia, me vi como uma marionete sendo controlada das sombras.
Estava chegando à esquina de um beco escuro, cada vez mais perto meu coração batia mais alto, me preparei para me tornar a mínima. Quando passei, olhei para o escuro intransponível, silêncio, apenas isso... esperei o ataque do coração como uma presa desistindo da fuga.
Nada.
Passei pelo beco ofegante e decepcionado pelo sentimento sem sentido, e quando o beco saiu do meu campo de visão, o tão esperado som apareceu. Estava de guarda baixa e o instinto de sobrevivência gritou, sem olhar para trás apenas corri, desesperadamente pela minha segurança.
Não sei o que pode ter causado esse estrondo, mas foi alto o bastante para liberar uma descarga de adrenalina instantânea, no momento não importa que seja, o que importa que por 3 quarteirões eu corri desesperadamente.

Virei à esquina e me deparei com uma rua iluminada, cheia de bares e pessoas, parece que o medo está passando. O efeito da morfina acaba e o desgaste muscular resolveu dar as caras. Agora mancando e ofegante me sentia mais seguro junto com os desconhecidos.
Peguei meu cigarro para relaxar um pouco, maldito vicio se não fosse por ele não teria ficado tão acabado com essa corria, mas sem ele provavelmente entraria em um colapso mental. No final da última tragada, outra onda de medo. Não consegui mais respirar, me engasguei com a fumaça, minhas pernas tremeram e meu rosto logo encontrou o chão, ainda de olhos abertos percebi que ninguém à minha volta veio me ajudar, duvidei de minha presença naquele lugar, naquele momento.
Quando retomei a consciência, estava deitado do mesmo jeito que desmaiei, mas a rua estava vazia e escura, me levantei vagarosamente, olhei para os lados, era a mesma rua, mas as lojas, os bares... estavam fechados e em ruínas, não havia indícios da presença de uma multidão naquele lugar. Olhei o relógio, era uma diferença de 10 minutos do meu último cigarro, e uma intolerável dor de cabeça surgiu, era tão acentuada que precisei me sentar novamente, pus as mãos na cabeça e a cabeça entre os joelhos, à pulsação de dor era tão forte que não contive o grito de agonia que rasgava a garganta.
Em instantes a tortura havia acabado, levantei a cabeça e abri os olhos e me deparei com a ponta do meu cigarro acesa, isso sozinho seria um tanto estranho, já que eu deixei cair no chão molhado há alguns minutos. Porém o que me deixou mais impressionado foi o fato de ele estar flutuando na minha frente.
Devo estar enlouquecendo, paranoia, desmaios, multidões sumindo, cigarros flutuantes... o que está acontecendo?
As poças de água denunciaram o início da próxima chuva, a ponta do cigarro ainda estava lá, imóvel igual a mim. Não consegui processar essa cena e muito menos uma reação a ela.
Ouvi passos.
Minha atenção se voltou na direção do som dos passos, o cigarro caiu no chão, apagado. Era uma mulher que se aproximava o rosto pálido, olhos negros, um corpo esbelto coberto por um vestido branco rasgado, seus cabelos negros como a noite pareciam esvanecer pelas pontas, ela tinha um rosto perfeito que estranhamente, eu não podia deixar de prestar atenção nele. Fiquei hipnotizado pela presença dessa perfeição.
Ela se sentou ao meu lado, o olhar penetrante ao meu, aproximou o rosto, acariciou minha pele com a ponta dos dedos, fechei os olhos ao seu toque, era gelado... tão gelado que me fez sentir um arrepio pelo corpo todo. Respirei fundo e abri os olhos, seu rosto estava mais próximo, e ela estava sentindo meu hálito com um sorriso de satisfação no canto da boca.
Acho que esse sonho inimaginável me fez retornar à realidade, logo ela percebeu isso.
-Não se lembra, não é?
Continuei imóvel encarando ela, pois realmente não sabia se devia me lembrar de algo, ela abriu um sorriso maior ainda.
-Tudo bem, você vai se lembrar em breve, apenas fique calmo...estarei aqui com você.- Falava em um tom tão doce, com a voz estonteante-
Levemente ela puxou minha cabeça para seu colo, me senti estranhamente seguro ali, apesar de todo esse surrealismo dominando a minha mente como um pesadelo sem sentido.
-Vejo que ainda não se deu conta da marca em seu pescoço.
Fiquei assustado, que marca seria essa? Passei a mão trêmula em meu pescoço e percebi a marca dos dois furos profundos.
Eu não fui à festa ontem.

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